Eu sou a mais velha de cinco irmãos e devido a essa quantidade de
crianças, minha mãe resolveu pedir reforço a nossos parentes. A enviada
foi minha prima Amélia que naquela época já devia ter quase 18 anos.
Ela ajudava minha mãe durante o dia e a tarde antes de ir para escola
ela sempre parava um pouco e me ensinava a ler, escrever, contava
histórias lia poesias. Graças a ela comecei a 1° série já conhecendo as
letras, mas ainda não sabia o que era vogal e nem consoante.
Naquela época, era muito difícil criar cinco filhos, não existiam
essas, “facilidades” de bolsa escola, bolsa família, auxílio creche,
uniforme, livros e materiais grátis, tudo era pago e éramos obrigados a
ir uniformizados para a escola. De tempos em tempos, na escola apareciam
uns representantes vendendo brinquedos, roupinhas de bonecas (de
papel), blocos de papel de carta, livros e dicionários. E me lembro que
no meio de tantas coisinhas “divertidas” que eu poderia ter comprado,
resolvi comprar um dicionário, pois se fosse qualquer outra coisa, meu
pai não ia liberar o dinheiro (Sábio homem). E eu tenho esse dicionário
até hoje, encapado no plástico quadriculado.
Voltando lá na minha prima, ela sempre estava num canto lendo, lia muito
gibi e outros livros que não recordo no momento. Estou falando dela,
pois eu imaginava que quando fosse “gente grande” seria igual a ela. Eu
iria desligar a televisão, ou o rádio, me sentar com um livro na mão e
iria passar algumas horas ali, lendo em silêncio sozinha. Um dia minha
prima leu um poema, que eu achei tão intenso que ficou gravado na minha
memória. Ele começava assim:
“Na minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sábia;
As aves que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá”.
Eu nem sabia o que era “gorjeiam”, mas adorei aquele poema, aí você
sabe como é criança, durante os dias seguintes também fiz poemas, achei
que poderia ser poetiza. Anos mais tarde, saberia que o poema se chama
Canção do exílio de Gonçalves Dias, e com a ajuda do meu dicionário
descobri o que significa gorjeiam.
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